quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Hino à Branca.

A Branca veio para a casa dos meus pais por mero acidente. Ou seja, quando a trouxe do canil de Sintra, ia apenas buscar o irmão dela, para dar a um amigo como prenda de aniversário, mas quando a vi a agarrar-se à perna das minhas calças a puxar e a roer, não consegui resistir, e quando olhei para a minha mãe que estava comigo ela, percebeu pelos meus olhos que tinha um "problema". Quando trouxemos os dois (um cão e uma cadela), com apenas um mês e meio de vida, para casa percebemos que as coisas não iam ser assim tão fáceis. Logo no caminho de regresso, os dois bichinhos choraram a viagem toda, enfiados numa caixa de cartão que o canil nos tinha dado. Quando chegámos a casa, estávamos um bocadinho perdidas, porque sinceramente, não percebíamos nada de cães, e muito menos o que eles comiam. Como a primeira coisa que estava à mão foi arroz de tamboril, foi o que eles comeram. E foi essa a primeira refeição dos nossos alegres e irrequietos cachorrinhos. Comeram tanto que a barriga deles inchou de tal maneira que parecia que iam rebolar. A comida no canil não abunda, e não é todos os dias que podem comer comida de humanos!
Apercebemo-nos cedo que o macho vinha doente do canil, e ao fim de quatro dias, já não se punha de pé. Aquele que de início rosnava à cadelinha pela luta do comer, agora mal se mexia. Ele que tinha o pêlo tão farrusco que lhe originou o nome, e que foi a causa do início de toda esta história, estava gravemente doente. Fomos com ele ao veterinário onde nos disseram que tinha a temperatura muito baixa, e que provavelmente não iria resistir mais um dia. Eu só olhava para a minha mãe e chorava, com pena daquele bichinho indefeso, que agora que iria ter uma boa vida com muito carinho e amor, estava a morrer. E assim foi. Fui trabalhar nesse dia, e o Farrusco ficou com os meus pais e irmão em casa, deitado na caminha dele, ligado a soro. Por volta das 15.30 pareceu-me ter ouvido um ganir, a tantos quilómetros de distância, e soube que ele tinha morrido. Liguei para casa, onde me confirmaram o pior. E ainda tive que voltar para Lisboa, sem demonstrar o que se tinha passado. E sorrir. Tinha sempre que sorrir - obrigação do trabalho.
Claro que a partir desse dia a cadelinha que sobreviveu e crescia a olhos vistos, passou a ser muito mimada e acabou por se tornar na minha filhota, na netinha que os meus pais não tinham, e na sobrinha do meu irmão.
Inicialmente chamava-se Leonor, porque foi pela altura em que nasceu a filha dos Príncipes de Espanha, e todas as meninas que nasciam eram Leonores. A minha não foi excepção! O nome não pegou, porque o pêlo da minha cadelinha é todo branco, e andavamos sempre a dizer "a Branca isto, a Branca aquilo", e claro, acabou por se chamar Branca das Neves.
Entre muitas das tropelias que tinha pelo facto de ser uma cadelinha nova, como roer sapatos, roupas e móveis (caiu a porta do móvel da sala dos meus pais, porque ela roeu a esquina), ela tornou-se na bichinha mais fofinha e amada, por todos nós lá em casa. A minha mãe levava-a às vacinas dentro dum saco de viagem, e ela toda contente com a cabecita de fora, lá ia ladrando pelo caminho a meter-se com as pessoas. Claro que toda a gente lhe achava imensa piada, e fofa como ela era muita gente metia conversa connosco para lhe fazerem festinhas.
Como ainda era pequenina, não podia andar na rua porque não tinha as vacinas todas, e não convinha ter contacto com outros cães, estava o dia todo fechada em casa. Tadinha! Nós brincavamos com ela, e ela arreliava o gato - o Pantera - (que já era dono da casa há alguns anos) de todas as maneiras e feitios. Corria atrás dele, chamava-o com a pata, encostava-se a ela para dormir. E ele que só queria estar só, sempre muito independente.
Agora, ao fim de quase 6 anos, que na idade da Branca equivale a 42, vemos que foi uma mais valia a vinda (acidental) da Branca para nossa casa. Ainda me lembro de quando compramos as gamelas para ela, a minha mãe dizer "é só até 2a feira". Mas ninguém lhe conseguiu ficar indiferente, e muito menos eu, que tenho um amor impagável, e sou completamente apaixonada por ela. A Branca pode ser muito irrequieta e dá trabalho, mas tem-nos uma adoração desmesurada e adora cada membro da nossa família à sua maneira.
Pelas palavras da Branca: "A avó é a minha companheira fiel dos passeios, quando a mamã não está, e a que cozinha o meu franguinho com arroz delicioso. O avô é o meu preferido para partilhar a cama, quando chego da rua de passear com a minha avó e ao fim-de-semana ele está lá, vou-me chegando a ele, chegando, chegando, até ele deixar um espacinho na cama só para mim, para ficarmos encostadinho um ao outro. O meu tio é um doido, adora brincar comigo, embora não o veja muitas vezes, porque ele arranjou uma parceira e também teve um filhote; que até é parecido comigo, também se baba muito e tem uma espécie de ladrar semelhante ao meu, com guinchos e tudo, mas que também é muito giro, e tá sempre a tentar fazer-me festas - que é o meu primo Daniel. O meu tio David está sempre a brincar comigo e depois pega-me nas patas traseiras e diz "onde está a passarinha", e rimos muito os dois. A minha mãe, bem essa é que é maluca, anda sempre com uma bola atrás quando vamos passear e e está sempre a dizer-me para correr atrás da bola, diz que é p eu fazer exercício, mas eu acho é que é para ela fazer exercício porque ela tá um bocadinho gordinha. Mas ela gosta muito de mim! Dá-me muitos beijinhos e eu a ela. Faz.me festinhas para adormecer, escova-me para deixar o meu pêlo brilhante, faz-me frango com arroz todos os dias, e quando vimos da rua à tarde brincamos sempre um bocadinho na sala grande que ela tem, e à noite, por vezes, depois de fazer o meu xixi brincamos na garagem também"
Aprendi bastante com a Branca! Aprendi que uma coisa que me chateia imenso passa a não ser nada, quando ela me trás a bola para brincar e a empurra com o nariz para o meu colo. Aprendi que quando estou doente, ela não abandona a minha cama, mesmo quando tenho apenas tosse, ela fica lá a noite toda. E que quando estou triste e choro, ela nunca me abandona e percebe que necessito apenas de carinho, e dá-me uma das suas lambidelas, o que faz com que sorria novamente.
Melhorou em todos os aspectos a nossa vida familiar, todos rimos mais, estamos mais descontraídos, brincamos mais. Ela é de facto um membro fantástico da nossa família.
É a minha companheira, a minha amiga, a minha filha, a minha vida!

2 comentários:

  1. Gostei muito de ler, para além de lembranças fez-me sentir aquele amor que temos pelos nossos animais SEMPRE seja quando for.
    Bom texto escrito por uma boa pessoa.

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  2. Obrigada. É sempre bom receber uma boa crítica ;)

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