terça-feira, 11 de outubro de 2011
O NOSSO AMOR TORNADO CONTO
Inserida numa relação que a consumia, desgastava e não fazia feliz, Julieta esperava por um sinal; algo que a fizesse tomar coragem para acabar uma relação que não tinha futuro, em que o único interesse parecia resumir-se sempre ao sexual. Habituada a ler romances com historias de amores verdadeiros e eternos, procurava também para ela um amor assim... daqueles em que nasce um sentimento avassalador, apaixonado, com uma certeza nunca antes sentida, um amor para a vida!
No momento antes de Romeu entrar na sala de briefing Julieta conversava com o seu chefe sobre o trabalho desse dia e ultimavam os preparativos. Eis que aparece Romeu, que por ser novo no trabalho se mostrava algo nervoso e pouco à vontade. O chefe ao perceber a pouca experiência pregou-lhe uma partida. Romeu não sabia o que fazer e embaraçado olhava para a colega, cujo olhar se tinha colado a ele desde a sua entrada na sala, e confirmava a versão do chefe. Quando a verdade foi reposta e o ambiente se tornou mais descontraído as gargalhadas surgiram naturalmente. Todos riram e desde o início uma grande empatia surgiu entre os dois colegas. No avião a cumplicidade crescia, tal como a confiança; e ambos apreciavam bastante a companhia um do outro. Julieta só pensava se o que estava a sentir seria apenas uma atracção, como costumava acontecer naquele mundo vazio de sentimentos verdadeiros.
Quando surgiu em conversa, Julieta prontificou-se logo a esclarecer que tinha namorado, para que não fossem tiradas conclusões desnecessárias, e para não se colocar numa situação algo desconfortável. Mas mesmo assim sentia que algo estranho se passava... algo crescia...
Durante o serviço de vôo notava-se uma confiança cada vez maior, os olhares trocados, os sorrisos, tudo evidenciava uma relação de amantes que nem sequer existia. As conversas resumiam-se a elogios, tentativas de conhecer um pouco mais um do outro, até terminar nos nomes carinhosos (por vezes ridículos) que se utilizam nas relações. Em jeito de brincadeira começaram a escolher o nome para um e para outro e a conclusão foi Tiramisu para ela e Cocada para ele. Quando Julieta foi chamada assim por Romeu a primeira vez sentiu que as suas faces coravam, e contra tudo tentou, em vão, esconder aquela denúncia dos seus sentimentos; aquela reacção que ela controlava tão bem, mas que naquele momento tinha sido mais forte que tudo. O que ela não sabia era que Romeu tinha notado também, mas não fez comentários.
À medida que o tempo ia passando iam conhecendo-se melhor, tinham uma sede um do outro que não conseguiam nem queriam explicar. A certa altura Julieta sentiu uma certa fome, e resolveu descascar uma laranja, situação normal. Mas eis que Romeu afirmou que também gostava bastante de laranja e quase nunca nenhum tripulante se dava ao trabalho de descascá-la pelo trabalho implicado. Dona da laranja, e depois de descascada, ofereceu metade a Romeu que ficou muito agradecido e tocado com o simples gesto da colega. Durante a rotação que fizeram ao longo dos três dias as laranjas foram sendo descascadas à vez, primeiro por ela e depois por ele, tornando-se num gesto cúmplice denunciador de um amor que nascia, cujo acto tão simples se tornava numa maneira de terem um contacto só deles, que mais ninguém conhecia nem dava a importância que eles davam.
Julieta só pensava no que estava a sentir. Nunca antes lhe tinha acontecido sentir algo tão forte, rápido e intenso. Não se deixava levar facilmente por sentimentos supérfluos, no entanto havia algo que lhe dizia que este não era um sentimento qualquer e contra tudo o que achava e pensava, começou a deixar-se levar.
Quando finalmente chegaram a Barcelona já tinham combinado jantar, e contrariando a rotina, a tripulação desceu toda para uma refeição num dos mais conhecidos restaurantes de tapas seguido por uma saída O caminho até ao restaurante feito a pé pelas Ramblas, foi sempre acompanhado de uma excelente conversa e carinho crescentes. Durante o jantar ambos estavam preocupados com o bem-estar um do outro: serviam-se das iguarias que chegavam à mesa e preocupados serviam-se um ao outro, incluindo da sangria que começava a relaxar as últimas reservas que ainda restavam. Satisfeitos com o jantar saíram para procurar uma discoteca com o intuito de conhecer a noite de Barcelona.
O tema de conversa nessa altura era o flirt entre colegas, o flirt que estava a acontecer entre os dois, e aí foi assumido por ambos que se desejavam mutuamente. Na discoteca o ambiente apelava ao toque e quando se dirigiram para pedir a primeira bebida as suas mãos entrelaçaram-se e não mais se largaram até voltarem para junto do grupo, para que o gesto não denunciasse o sentimento crescente que existia. Embora o desejo apelasse a isso, Julieta não se deixava ir, não queria arrepender-se de algum acto irreflectido.
No final da noite, depois de chegarem ao hotel a despedida tornava-se dura e com a desculpa dos colegas fumarem um cigarro sentaram-se na entrada do hotel a conversarem, tentando aproveitar todos os minutos da presença um do outro. Quando desejaram boa noite, ambos sabiam que iriam reencontrar-se em sonhos, seria a única maneira de se terem sem limites ou reservas, sem pensar sequer no presente, apenas no futuro que poderiam ter os dois; e recordando aquele dia adormeceram de cansaço.
O segundo dia de rotação foi ainda mais intenso do que o primeiro, a tentação persistia, mas acima de tudo uma amizade crescente e necessidade mútua de querer saber tudo sobre as respectivas vidas ia-se instalando. Quando chegaram a Bruxelas, a cidade em que ficariam nessa noite, foi iniciada uma aposta: ambos iriam relaxar-se e deixar-se levar pelo que surgisse na altura (embora Julieta permanecesse retraída devido à relação pendente que tinha em Lisboa).
A noite acabou por revelar-se surpreendente, num bar local da cidade, onde ambos relaxaram, tendo o alcoól como anfitrião; todas as amarras se soltaram e Julieta simplesmente deixou-se ir. A confiança, os toques, a dança sedutora que ambos encetaram e mantiveram ao longo daquela noite denunciava um amor tímido que nascia ali, naquele instante precedido pela confiança, amizade e desejo iniciados no dia anterior.
Os colegas que os tinham acompanhado presenciavam algo puro que nascia, que ia tomando consistência, e por esse motivo os deixavam a sós. Aquela noite foi contantemente acompanhada pelo alcoól e por karaoke, já que aquela era a noite especifica do bar para esse espectáculo. A dado momento da noite, a música escolhida pela tripulação tinha sido “All you need is love”, e aí enquanto cantavam os quatro no palco, as mãos destes dois apaixonados entrelaçaram-se e a sensação de um acto tão simples como aquele foi indescritível, era o primeiro gesto de ambos afirmado pela certeza de ambos quererem exactamente a mesma coisa – apenas um carinho, uma afirmação daquilo que vinham a sentir há já dois dias.
A ânsia por um beijo aumentava e nessa altura, Julieta já levemente tocada e relaxada pelas bebidas apenas desejava que Romeu a beijasse. Embora fosse essa a vontade deste homem que também morria de desejo, continha-se; não queria que aquela noite se tornasse no dia seguinte em simples arrependimento. Depois de tanta cumplicidade, não queria desperdiçar aqueles momentos e entregar-se apenas numa aventura. Ele tinha certeza disso, e Julieta também começava a ter certeza de que não seria apenas um caso de uma noite, devido à maneira como ele resistia ás suas provocações. “Se fosse apenas um flirt usual ele teria aproveitado a oportunidade”, pensava...
A noite, pensou Julieta enquanto se deitava, acabou por ser conselheira e reveladora de sentimentos. Seria possível estar a apaixonar-se ao fim de apenas dois dias?!
Mal se deitou a sua mente foi povoada com sonhos. Eram quentes, cheios de desejo por um simples beijo que se mantinha na eminência de confirmar tudo o que sentiam.
Na manhã seguinte foi acordada pelo telefonema de Romeu que preocupado tentava saber se tinha agido de maneira correcta durante a noite passada, porque não se recordava ao certo do final devido a uma noite inesquecível mas marcada pelo esquecimento que o alcoól em excesso provoca.
Julieta respondeu-lhe que tinha sido um perfeito cavalheiro, sempre controlado, mesmo com a tentação presente. Romeu desligou, mas insatisfeito voltou a marcar o número do quarto e perguntou se podiam conversar antes da apresentação para o vôo. Julieta respondeu que sim, até porque o que ela mais desejava era poder vê-lo o mais cedo possível, sem a presença de colega ou outras pessoas. E por isso convidou-o para um chá.
Quando Romeu entrou no quarto, ambos estavam nervosos. Julieta disse-lhe para se sentar e estratégicamente sentou-se um pouco mais longe daquele homem que fazia o seu sangue ferver e o desejo transparecer por todos os poros do seu corpo. A conversa foi simples e envergonhada, até que Romeu assumiu o desejo que sentia e que nenhum dos dois tinha assumido em palavras. Obviamente Julieta ficou nervosa e desconfortável e decidiu que estava na altura de descerem porque o ambiente tornava-se instável, e não sabia até que ponto iria resistir aqueles lábios carnudos, ás mãos dominantes, ao corpo torneado, ao perfume que ele exalava e quase a fazia perder os sentidos... Depois de descerem para a recepção do hotel voltaram a manter a descrição; não podiam deixar transparecer o que sentiam.
Os outros três vôos que fizeram nesse dia, de regresso a casa, denotavam uma tristeza antevendo um final que ambos não queriam. Romeu foi atingido por uma indisposição e Julieta tratou dele, como se fosse de facto o seu amor, o seu namorado. Acarinhava-o mas evitava os toques para não incorrer em algo mais que sabia que se surgisse ela não resistiria. Olhava-o intensamente e nesses momentos eram transmitidos todos os sentimentos, emoções, o calor e o carinho mútuos que ambos se recusavam a pôr em palavras.
O inevitável finalmente chegou e com muita pena Julieta preparou-se para se despedir de Romeu. Tinham trocado contactos anteriormente para que pudessem combinar algo, mas a despedida tornou-se fria, atrapalhada pela presença de colegas em volta, e o que se esperava que fosse dito ficou suspenso resumindo-se a uma despedida impessoal que ambos lamentaram e isso foi notório para ambos. O caminho efectuado até ao carro pareceu uma eternidade e a única coisa que Julieta pensava é que queria voltar a ter tudo aquilo que tinha sentido durante a rotação; sentia-se dilacerada, só, como se tivesse perdido algo de muito precioso.
O seu único desejo era correr para os braços de Romeu, beijá-lo e dizer-lhe que estava apaixonada por ele. Mas não podia, nada era assim tão simples. A tentação de ligar-lhe era grande, mas que iria ela dizer? Que tinha saudades dele, quando se conheciam à apenas três dias? E pior: ainda tinha que tomar a decisão de terminar a sua relação. Não só por tudo o que tinha acontecido naquele curto espaço de tempo, mas principalmente porque a relação que mantinha não a fazia feliz.
Resolveu então ligar ao seu namorado, e tentou parecer-lhe o mais natural possível, mas ao longo da conversa, foi fácil para ele perceber que algo se passava. Já há algum tempo notava que Julieta se tornava cada vez mais fria nos seus actos, na maneira como o tratava, e pressentia um fim eminente. O facto do namorado de Julieta também ser tripulante acabou por lhe comprar tempo, já que este se encontrava fora do país. Ela tinha que tomar uma decisão, sabia disso.
Depois de desligar, e sempre com o pensamento em Romeu, o seu telemóvel tocou. O coração palpitava na esperança de ser uma mensagem deste. E de facto, era! O coração de Julieta palpitou, à medida que lia a mensagem. Romeu afirmava que tinham tido uma rotação tão intensa, recheada de sentimentos tão bons, mas com uma despedida triste e impessoal. Os olhos dela brilharam, secretamente tinha esperança de falar com Romeu ainda nessa noite e perceber o que de facto se passava, que sentimentos ele nutria por ela.
A resposta de Julieta foi imediata alegando que a maneira como se despediu dele não era a pretendida ou tão pouco a imaginada, mas que dadas as circunstâncias nada mais tinha sido possível. No entanto confessava-lhe que nunca tinha sentido algo tão forte, tão intenso e com tanta certeza por alguém, como ele – praticamente um desconhecido.
Julieta sempre tinha acredito em amor à primeira vista, mas achava que acontecia apenas ás outras pessoas. A sua vida era recheada de relações frustradas, em que o início era sempre muito intenso, mas que em pouco tempo o interesse dela na outra pessoa desvanecia-se, por achar que merecia melhor, que iria existir alguém que que fizesse sentir-se especial, amada e a quem ela amaria com todas as suas forças! Com tudo o que tinha acontecido, começava a suspeitar seriamente se aquele homem não seria a pessoa especial que ela andava à procura.
As mensagens perduraram por toda a noite e devido à distância que estas proporcionavam Julieta conseguiu afirmar que sentia algo por ele, não sabia bem o que era, mas tinha a certeza ser muito especial. Ambos chegaram a acordo que tinham que se encontrar novamente, o mais rápido possivel porque a distância começava a ser dilacerante. No entanto Romeu sabia que tinha que ser cauteloso devido à relação que Julieta ainda mantinha. Não sabia ao certo a intensidade dos sentimentos dela e não queria magoar-se novamente, coisa que se tinha tornado frequente.
Como a tripulação se tinha dado muito bem Julieta ulitizou esse motivo como desculpa e marcou um jantar com os colegas. Esta seria a oportunidade perfeita para para voltar a falar com Romeu sem ser a sós. O que ela não esperava era que Romeu lhe pedisse para se encontrarem antes do jantar para conversarem, apenas para terem uns breves momentos só para eles, longe de tudo e de todos, sem disfarces, sem situações inconvenientes. Julieta sentiu-se constrangida, embora intimamente fosse isso que também que ela queria. Para ele a necessidade de abraça-la, estarem a sós, conversarem os dois seria um bem precioso como o ar que respirava. Queria-a só para ele, e cada vez mais isso se tornava evidente.
Durante todo o dia que antecedeu o jantar trocaram mensagens, incluindo mensagens com vídeos. Julieta mostrava-lhe a vista da sua varanda a beber café e Romeu respondia com uma imagem fantástica da praia perto da zona onde morava. Um sítio especial para ele, onde costumava ir quando precisava pensar, ou apenas relaxar.
Fazia sentido para ele mostrar-lhe aquela praia, já que Julieta se tinha tornado também ela especial para ele. Os minutos iam passando e à medida que a hora marcada se aproximava Julieta começava a sentir um frio na barriga, o nervosismo aumentava e sentia medo misturado com uma grande ansiedade. Devido ao trânsito encontrado, Julieta não conseguiu chegar à hora marcada e por isso apenas dispôs de uns minutos a sós com Romeu, minutos esses suficientes para um longo abraço assim que se encontraram e para falarem o mínimo sobre o namorado dela. Julieta olhava para Romeu com carinho, sem dizer uma única palavra e apercebia-se nessa altura que estava apaixonada por ele.
Durante o decorrer do jantar a cúmplicidade era evidente, seguiam-se os toques disfarçados por debaixo da mesa, as festinhas, os olhares – tudo evidenciava um amor que crescia desmesuradamente. Os dois colegas da rotação que os acompanhavam retiraram-se por instantes para fumarem no exterior do restaurante e foi nessa altura que Romeu afirmou com toda a certeza que estava a gostar realmente de Julieta. Esta sentiu um calor crescente, um carinho especial a apoderar-se dela e um desejo de o beijar ali mesmo, naquele instante. Naquele momento Julieta percebeu que Romeu sentia exactamente o mesmo que ela e que este sentimento seria algo por que arriscar. Nessa noite a sua decisão tinha sido tomada, teria que acabar com a sua relação desgastada e sem sentimentos e entrar neste grande Amor com todas as suas forças, apostar tudo nesta relação recheada de uma paixão tão avassaladora, um carinho tão especial, e um desejo crescente que teria tudo para dar certo.
A seguir ao jantar ainda foram tomar um digestivo a um bar ali perto. Era noite de música ao vivo e este ambiente colocou-os um pouco mais à vontade. A admiração mútua era evidente e o entraçar dos dedos do casal não tardou em aparecer. Aquele era o gesto mais atrevido que tinham tido até ali, e por ser tão simples era tão especial.
Depois dos músicos darem por terminada a noite, Romeu e Julieta despediram-se dos colegas desafiando a intimidade que crescia entre eles. Foram p ara o carro para se despedirem mas como previsível ficaram durante longos momentos a conversar. Ao longo da noite a companhia um do outro tornava-se indispensável, nenhum dos dois queria despedir-se. A conversa surgia naturalmente tal como os toques de mãos e abraços. A música - Creedence Clearwater - escolhida por Julieta surpreendeu Romeu porque esta era também uma das bandas que ele preferia. Ficaram silenciosos, a beijarem-se com o olhar, a amarem-se em gestos, em sentir o quão especial era aquele momento. Sempre respeitador, Romeu respeitou Julieta relativamente ao facto de não a poder beijar, não naquela noite. Teriam que esperar apenas mais um pouco para serem livremente um do outro, e não serem assombrados por um começo de relação iniciado na traição.
Julieta não disse nada, mas contrariando todo o desejo que sentia, apreciou o gesto repeitador daquele seu amigo, e amado.
Enquanto se dirigia para casa pensava no quão maravilhosa tinha sido a noite, apenas pela presença de Romeu ao seu lado. Ele fazia-a feliz, uma sensação nunca experiênciada até ali. Como conduzia pela marginal junto à praia decidiu fazer uma paragem rápida para olhar a lua e agradecer-lhe o facto de ter encontrado Romeu. Não sabia a quem agradecer ao certo por ele ter aparecido na sua vida, mas a lua tinha sido sempre sua cúmplice e conselheira nas alturas mais difíceis da sua vida, e agora que Julieta se sentia realmente feliz sentiu-se na necessidade de partilhar com ela.
Chegada a casa, tinha a cabeça à roda – apenas relembrava inúmeras vezes aquela noite tão especial, a primeira de entre muitas, almejava Julieta. Nessa altura ia trocando mensagens com Romeu para saber se este já tinha chegado a casa. Confessou-lhe que não conseguia dormir tal era a ansiedade criada por aquela noite e carinhoso como sempre Romeu enviou-lhe uma música através do telemóvel, onde ele próprio cantatava «Circo de férias» de maneira a embalá-la. Julieta delirou com aquele gesto carinhoso. Cada vez mais sabia o que sentia e tinha a certeza que este homem a faria muito feliz, tal como ela pretendia fazê-lo a ela. Era tudo tão maravilhoso...
No dia seguinte Julieta estava de folga e devido aos últimos acontecimentos resolveu retirar-se por uns dias para a sua casa no Ribatejo a fim de pôr as ideias em ordem. Como Romeu se encontrava a voar, seria mais fácil assim superar a sua ausência. O sol, o cantarolar dos pássaros, a calmaria daquela terra davam-lhe a serenidade que precisava e a coragem que não tinha tido até então. Romeu estava sempre presente na sua vida; mesmo estando longe os telefonemas e mensagens eram uma constante, demonstrando todo o seu amor, ternura e apoio numa altura como aquela. E era apenas isso que aquela rapariga necessitava...
Chegada a Lisboa a sua decisão tornava-se inevitável e o primeiro passo a tomar seria encontrar-se com o seu ainda namorado e terminar de vez aquela relação infeliz e desprovida de sentimento. Julieta já havia avisado o seu namorado de que precisava de ter uma conversa séria com o seu namorado, e este tinha consciência que o fim era inevitável. Quando se encontraram para conversar, o seu namorado tomou as rédeas à conversa e desbafou saber que aquela relação não a fazia feliz, por muito que gostasse dela também ele não estava disposto a viver na incerteza constante dos sentimentos de Julieta por ele. Preferia abdicar de vez de um amor que ele desejava, mas que não o fazia feliz devido à falta de entrega de Julieta.
Ela sabia que esta era a decisão certa, embora tivesse ficado triste com a frieza demontrada por ele, desvalorizando tudo o que tinham vivido. Achou estranho, ainda pensou que fosse uma maneira dele se proteger para que a separação não lhe custasse tanto; aquela falta de sentimento na despedida, isso sim foi o que mais custou a Julieta. Ambos afirmaram que seriam amigos, embora soubessem que isso seria apenas uma mera formalidade porque na realidade evitar-se-iam nos próximos tempos.
Quando foi para casa Julieta ainda derramou algumas lágrimas em sinal de despedida por uma relação que tinha sido feliz, mas não completa e desde o início sem futuro por ambos serem tão diferentes. Romeu ansiava por saber como tinha corrido porque Julieta lhe tinha dito que iria terminar a sua relação nesse dia.
Ele mostrava-se preocupado, não queria que ela se precipitasse na sua decisão, queria ter a certeza que Julieta tinha tomado a sua decisão baseada nos seus próprios pensamentos, na sua vivência com o seu namorado, do que no facto de se ter apaixonado por Romeu. Mas ambas eram verdade, Julieta apenas arrastava a relação anterior até ter coragem suficiente para acabar, mas queria ter a certeza disso, e aquela tinha sido a altura certa, independentemente de ter conhecido Romeu.
Mas agora sim, sabia o que era o verdadeiro o Amor, aquele sentimento que achava nunca vir a sentir, devido às relações falhadas por que passara. Mas ali, agora, era o seu momento: tinha finalmente encontrado um Amor para vida, as suas preces e desejos de encontrar uma pessoa que a preenchesse, que risse com ela, que fosse seu companheiro, que a amasse verdadeiramente, tinham sido ouvidas.
A comunicação entre ambos foi uma constante naqueles dias, nunca deixavam de falar um com o outro por pouco mais do que umas horas. As saudades aumentavam e o único desejo de ambos era encontrarem-se e aí, nesse momento terem-se um para o outro. Sem terem necessidade de se econderem, como anteriormente, de mostrarem ao mundo o quanto estavam felizes e o quanto se amavam. Um amor construído em poucos dias, mas muito mais forte do que algumas relações que duram anos.
O desejo de ambos era encontrarem-se brevemente, tinham uma necessidade tal de se terem um ao outro que chegava a doer. Julieta tinha planeado encontrar-se com Romeu depois do próximo vôo que iria fazer, uma vez que este chegava muito cedo de uma rotação e precisava de descansar. Mas contra tudo o que pensava Romeu sugeriu de imediato encontrarem-se na manhã em que ele chegava. E assim foi. Como Julieta iria voar ás doze horas, esta sugeriu um pequeno almoço em sua casa, preparado por ela com todo o carinho e amor que desejava dar-lhe.
Mas durante a noite que antecedia o tão esperado encontro Julieta questionava-se se teria sido boa ideia convida-lo tão cedo para a sua casa. Não queria que houvesse mal entendidos e que um momento especial se tornasse em algo desagradável e carnal. Embora gostasse muito de Romeu não o conhecia o suficiente para saber se ele iria interpreta-la de outra maneira. Mal sabia ela que Romeu tinha exactamente o mesmo receio...
No dia seguinte à hora marcada, Romeu encontrava-se no local combinado. Julieta estava ansiosa, nervosa por o ter assim tão perto. O combinado foi deixar o seu carro dele no local de encontro e irem no dela até à respectiva casa. Durante o caminho Romeu acariciava-a ternamente, mas Julieta ficava cada vez mais nervosa. Parecia a primeira vez que estava com alguém, pensava.
Quando chegaram a casa Julieta preparou-lhe o pequeno almoço com todo o carinho, mas com o nervosismo acabou por queimar o pão e ter que fazer outro. A vergonha instalava-se no seu corpo e as faces ruborizadas denunciavam isso. Romeu deliciava-se com a cena a atrapalhação dela.
Depois de tomada a primeira refeição do dia sentaram-se no sofá para conversarem, tendo ambos consciência do que estava para acontecer. A iminência do primeiro beijo fazia-se sentir e depois de vários carinhos, abraços e jogos de palavras. A distância tornou-se mais pequena até que finalmente os lábios de ambos se aproximaram e o primeiro beijo daquele casal que se amava desde o dia em que se tinham visto aconteceu. O beijo foi quente, recheado de amor e desejo. O calor que Julieta sentiu foi algo que nunca tinha sentido, uma sensação aconchegante, de protecção. Os seus lábios carnudos mostravam o que Julieta apenas tinha sentido em sonhos, e a realidade era muito melhor. Ali, no sofá da sala dela beijaram-se, abraçaram-se de maneira a nunca mais se deixarem um ao outro. Aquilo sim, pensava Julieta enquanto olhava silenciosa para Romeu, era Amor.
O passo seguinte era conseguirem separar-se depois daquela manhã mágica. O trabalho reclamava a presença de Julieta e a separação tornou-se inevitável.
Nos dias seguintes Julieta foi voar, tendo como destino a cidade de Paris na primeira noite e Milão nas segunda e terceira noites. A tripulação que integrou era inteiramente composta por mulheres e o ambiente era de descontração.
O objectivo de todas era divertirem-se naquela rotação.
E assim foi: a primeira noite em Paris foi calma, tenho a tripulação estado toda no crewlounge do hotel a conversar pela noite dentro. A segunda noite em Milão seria para o divertimento total, as outras três raparigas tinham tomado a decisão de que, quando fossem sair nessa noite, encontrariam pares para cada uma delas, apenas para se divertirem. Julieta e outra das raparigas olhavam para elas com pena por estas não terem um amor de tal dimensão como elas tinham. A outra colega era casada desde os vinte e um anos (tinha agora vinte e sete) e tinha um casamento muito feliz, e Julieta suspirava por Romeu tendo certeza do amor que sentia por ele, e do dele por ela. E apenas isso a fazia feliz, não precisava de mais nada. Toda a noite pensou no seu amor, e enquanto dançava sozinha na pista de dança imaginava os braços de Romeu a rodea-la, as suas mãos a tocar o seu corpo, a dança sensual que já tinha iniciado em Bruxelas perpetuava-se ali, naquele espaço, na imaginação dela.
Quando regressou a Lisboa apenas queria a presença de Romeu, tê-lo novamente nos seus braços, chamar-lhe Amor... Combinaram encontrar-se em Sintra, para este lhe mostrar o local onde morava, as praias, e o seu sítio especial: uma praia onde costumava ir para pensar e conversar com o mar, tê-lo como conselheiro. Foi a primeira vez que levou uma pessoa que lhe era realmente especial, e isso para ele significava que aquela relação seria já muito mais do que uma mera paixão.
Os encontros foram-se sucedendo e cada vez mais ambos apreciavam a presença um do outro. Ambos sabiam o que sentiam mas tinham medo de o afirmar com medo da reacção recíproca. Surgiu a oportunidade de Julieta trocar um vôo para ir com Romeu para Genebra e tendo a sorte do seu lado conseguiu a troca. Delirou de alegria imaginando como seriam três dias numa cidade maravilhosa como aquela na presença do seu amor. O único contratempo era terem que esconder a relação dos colegas para que a notícia de que Julieta tinha outra pessoa na sua vida não se espalhasse pela companhia e resultasse em má fama para esta. Sabiam que esse objectivo seria difícil de alcançar, mas enfrentaram-no e foram de viagem.
Chegados a Genebra ficaram pelo hotel na companhia da tripulação. A chefe desse vôo já tinha desconfiado da cumplicidade entre ambos, e perguntou a Julieta se eram namorados, o que ela negou firmemente. Tornava-se cada vez mais difícil esconder o amor que os unia. A certa altura a tripulação deu a noite por terminada e cada um foi para os seus quartos... excepto Romeu e Julieta que combinaram encontrar-se no quarto dela cinco minutos depois, de modo a que a tripulação não notasse nada. O aconchego entre os dois denotava um desejo crescente, toda aquela cumplicidade, aquele carinho denotavam um desejo crescente difícil de ser ignorado. E ali naquele quarto longe das suas casas, da sua terra, entregaram-se nos braços um do outro e culminaram num acto de amor desejado por ambos. As sensações presenciadas por ambos eram fantásticas, queriam beijar cada centímetro do corpo um do outro, tocar cada pedaço de pele, sentir cada batimento do coração, e amarem-se como se aquele fosse um momento único, perpetuado para sempre nas suas memórias!
E assim conheceram-se e amaram-se durante toda a noite, sabendo que aquele sim, era um amor verdadeiro.
No dia seguinte combinaram encontrar-se com a tripluação para conhecerem a cidade. Durante todo o dia a atração e proximidade entre ambos foi difícil de esconder, e mais uma vez a chefe afirmava que ali existia um amor. Eles apenas sorriam. As fotografias que tiravam evidenciavam tudo o que eles sentiam, e ao longo do dia os beijos escondidos e os toques disfarçados denunciavam o desejo de mais uma noite de amor. E assim foi. Ficaram abrçados durante horas até finalmente adormecerem nos braços um do outro, com uma serenidade e paz nunca antes sentidas.
O regresso a Lisboa foi normal, correu tudo como previsto e na despedida da tripulação combinaram trocar as fotos que cada um deles tinham tirado. O casal combinou encontrar-se no dia seguinte uma vez que precisavam dormir já que a noite tinha sido longa para os dois apaixonados.
Ao longo da semana os encontros foram-se sucedendo: o primeiro jantar fora, o primeiro passeio, o primeiro filme... e foi nesse filme que Romeu pela primeira vez afirmou o seu amor por Julieta. Depois da sessão terminada, ficou a olha-la com amor e as palavras surgiram-lhe naturalmente.
Aproximou-se dela, olhou-a nos olhos e carinhosamente susurrou-lhe ao ouvido “Eu Amo-te”. Julieta nem queria acreditar! Era tudo o que desejava ouvir e afirmar, mas tinha medo que por ser demasiado cedo pudesse assustar Romeu. Nesse momento afirmou-lhe também todo o seu amor por ele. Sabia que o amava desde o primeiro dia em que o tinha conhecido, que era um sentimento especial, muito forte, algo que ela nunca tinha sentido antes. E a simplicidade de poder chamar-lhe de “Meu Amor” fazia-a sentir feliz, como uma jovem rapariga que se apaixona pela primeira vez. Ficou emocionada e sem que Romeu notasse, duas lágrimas de alegria soltaram-se dos olhos de Julieta. Pela primeira vez sentia-se realmente feliz e devia-o apenas áquele homem por quem se tinha apaixonado e que amava como à própria vida!
Dias depois Julieta preparava a primeira refeição para Romeu. Tinha-se iniciado à pouco tempo nas artes culinárias porque morava à apenas poucos meses sozinha. Decidiu preparar risotto, o seu prato favorito, e enquanto esperava por Romeu que chegaria dentro de momentos pensava nele e em todas as sensações que ele lhe havia proporcionado. Desejava que aquela fosse uma noite especial e como tal queria que tudo fosse perfeito. Colocou o cd de musica que tinha feito há alguns anos com músicas românticas. Apenas faltava Romeu. Quando este chegou apercebeu-se que era uma noite especial e por esse mesmo motivo também ele quis preparar-lhe uma surpresa. Enquanto ela ultimava o jantar ele preparava-lhe a sala. Disse-lhe apenas que ela não podia entrar naquela divisão e que o avisasse quando estivesse tudo finalizado. E assim foi. Quando Julieta entrou na sala, pela mão de Romeu, com os olhos fechados, este puxou-a para si e pediu-lhe para abrir os olhos. Quando os abriu deparou-se com uma sala toda decorada com velas, a luz estava perfeita e ali naquele momento beijaram-se intensamente, com todo o amor que tinham para dar um ao outro.
Durante todo o jantar as carícias, os beijos, os toques foram uma constante. Afirmavam continuamente o seu amor um pelo outro, e parecendo a altura perfeita Romeu aproveitou a oportunidade e pediu Julieta em namoro. Embora ambos soubessem que eram namorados, Romeu queria fazer tudo da maneira correcta e olhando nos olhos de Julieta disse-lhe: “Queres namorar comigo?” E ao som da música de Pearl Harbor tocada no piano, a sua amada respondeu-lhe que sim, que era o que mais desejava e que nunca antes tinha sentido algo assim por alguém. Sabia que este era o sentimento mais verdadeiro, real e profundo que alguma vez tinha sentido.
Este era o início de uma linda e verdadeira história de Amor.
O nosso Amor!
sábado, 30 de julho de 2011
Saudades.
Não consigo amar ninguém como te amei. A ti. Com uma total entrega que até então não conhecia. Com uma intensidade que nunca julguei possível. Alguém que me completava como tu o fizeste, que era meu cúmplice, até infantil em certas alturas (como eu). Acordo por vezes de sonhos contigo, mesmo depois de tanto tempo passado. Fico com a dor da saudade de não te ter para mim, de não podermos voltar a ser um. De nunca mais podermos brincar um com o outro, de cozinharmos juntos, ou simplesmente irmos ao cinema.
Mas esse amor ficou no passado. Não o quero. Não me fazia bem, mesmo com todas as coisas fantásticas que tinha. Não era o que queria, o que precisava. Embora o que sentisse me dissesse o contrário.
Continuo à deriva, na esperança de encontrar outro grande amor, que me corresponda e complete na totalidade.
E é essa esperança que me faz continuar. Sei que ele anda por aí - quero acreditar que sim... Senão, que sentido faz sermos feitos para amar, para estarmos com alguém, se temos direito a apenas um grande amor na vida?!
É só esperar mais um bocadinho... Ele está quase a chegar...
quinta-feira, 24 de março de 2011
Anúncio a corrector.
Não pdia dxar de colocar aqui esta obra de arte. Somplesmente genial!!
Um caçador encontra um urso e uma voz (deste lado) diz-lhe que dispare. O caçador agarra no corrector, apaga a palavra do título do vídeo e diz-nos para escrever um verbo nesse espaço (em inglês, claro).
Experimentem mais que um verbo...
quarta-feira, 23 de março de 2011
Posso dizer q a minha vida até hoje tem corrido bem.
Claro, há sempre qualquer coisa a reclamar. Para dizer a verdade não tenho grande sorte ao amor. Quer dizer, já experienciei vários tipos de amor, mas no entanto continuo sozinha. Existiu o 1º amor – uma coisa assolapada. Demorei quase 2 anos, até conseguir que o rapaz olhasse para mim. Tinha eu 17 e ele 21. Quando o consegui, começamos finalmente a namorar e ao fim de 6 meses já estava farta dele (lol). Claro q a diferença de idades não ajudava: estava eu na flor da juventude, a querer experimentar tudo e mais alguma coisa, esta ele a querer uma relação séria. Claro q n funcionou. Troquei-o p outro, q – ironia das ironias – também me trocou p outra. Seguiram-se várias relações, sendo que todas tinham um sabor amargo, procurando sempre algo melhor. Quando finalmente conheci o grande amor, e estava preparada par vivê-lo em força, ele recuou. E aquilo q pensei q fosse o meu grade amor, tornou-se no meu 1º desgosto de amor.
Doeu bastante, a recuperação foi dolorosa. Mas como sabemos, tudo passa.
Hoje em dia prefiro estar sozinha, c a minha melhor amiga e companheira: a minha cadela. Sou feliz assim mesmo, sozinha à minha maneira.
De facto acho que sou uma sortuda: tenho uma família q amo, onde qualquer desculpa serve para nos encontrarmos p almoçar, jantar, ou simplesmente p estarmos juntos.
Adoro o que faço, mesmo que as vezes me apeteça matar alguém. Tenho um bom ordenado que me permite acalmar a necessidade consumista que de vez em quando aparece em força, coisa que maioria das pessoas não pode fazer.
Fico completamente rendida, quando passeio a minha cadela durante o dia, e passo nos playgrounds das crianças, e as oiço a rir, um riso de tal maneira puro e inocente, que me provoca o riso a mim também. E as festinhas e a curiosidade em volta da Branca, e eles/as a imitarem o ladrar dela – muito fofo!
Aperceber-me que afinal não estou assim tão gorda – aquelas calças servem! – e correr imediatamente para me deliciar com o petit gateau (cuja receita maravilhosa foi a minha mãe que descobriu) ou com os crepes do Continente.
Tenho uma casa perfeita (tirando a infiltração num dos quartos e o vizinho que liga a música indiana as 7h da manhã, fazendo-me bater na parede aos murros!) a que chamo o meu lar.
Adoro a novidade, não ter planos, e de um momento para o outro preparar um piquenique e levar o meu sobrinho ao parque e tirar imensas fotografias. Sentar-me na varanda ao fim da tarde a ver o pôr-do-sol, a comer tremoços e beber panachê.
Preparar um repasto de petisco só para mim, acompanhado de uma bela sangra, e no fim do jantar sentir-me mais leve, mais divertida, e também por vezes dormente (:P).
Enfim, são estas pequenas coisas que completam o meu dia. Se é Perfeito? Não é. Mas se o fosse, tornava-se chato!
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Hino à Branca.
Apercebemo-nos cedo que o macho vinha doente do canil, e ao fim de quatro dias, já não se punha de pé. Aquele que de início rosnava à cadelinha pela luta do comer, agora mal se mexia. Ele que tinha o pêlo tão farrusco que lhe originou o nome, e que foi a causa do início de toda esta história, estava gravemente doente. Fomos com ele ao veterinário onde nos disseram que tinha a temperatura muito baixa, e que provavelmente não iria resistir mais um dia. Eu só olhava para a minha mãe e chorava, com pena daquele bichinho indefeso, que agora que iria ter uma boa vida com muito carinho e amor, estava a morrer. E assim foi. Fui trabalhar nesse dia, e o Farrusco ficou com os meus pais e irmão em casa, deitado na caminha dele, ligado a soro. Por volta das 15.30 pareceu-me ter ouvido um ganir, a tantos quilómetros de distância, e soube que ele tinha morrido. Liguei para casa, onde me confirmaram o pior. E ainda tive que voltar para Lisboa, sem demonstrar o que se tinha passado. E sorrir. Tinha sempre que sorrir - obrigação do trabalho.
Claro que a partir desse dia a cadelinha que sobreviveu e crescia a olhos vistos, passou a ser muito mimada e acabou por se tornar na minha filhota, na netinha que os meus pais não tinham, e na sobrinha do meu irmão.
Inicialmente chamava-se Leonor, porque foi pela altura em que nasceu a filha dos Príncipes de Espanha, e todas as meninas que nasciam eram Leonores. A minha não foi excepção! O nome não pegou, porque o pêlo da minha cadelinha é todo branco, e andavamos sempre a dizer "a Branca isto, a Branca aquilo", e claro, acabou por se chamar Branca das Neves.
Entre muitas das tropelias que tinha pelo facto de ser uma cadelinha nova, como roer sapatos, roupas e móveis (caiu a porta do móvel da sala dos meus pais, porque ela roeu a esquina), ela tornou-se na bichinha mais fofinha e amada, por todos nós lá em casa. A minha mãe levava-a às vacinas dentro dum saco de viagem, e ela toda contente com a cabecita de fora, lá ia ladrando pelo caminho a meter-se com as pessoas. Claro que toda a gente lhe achava imensa piada, e fofa como ela era muita gente metia conversa connosco para lhe fazerem festinhas.
Como ainda era pequenina, não podia andar na rua porque não tinha as vacinas todas, e não convinha ter contacto com outros cães, estava o dia todo fechada em casa. Tadinha! Nós brincavamos com ela, e ela arreliava o gato - o Pantera - (que já era dono da casa há alguns anos) de todas as maneiras e feitios. Corria atrás dele, chamava-o com a pata, encostava-se a ela para dormir. E ele que só queria estar só, sempre muito independente.
Agora, ao fim de quase 6 anos, que na idade da Branca equivale a 42, vemos que foi uma mais valia a vinda (acidental) da Branca para nossa casa. Ainda me lembro de quando compramos as gamelas para ela, a minha mãe dizer "é só até 2a feira". Mas ninguém lhe conseguiu ficar indiferente, e muito menos eu, que tenho um amor impagável, e sou completamente apaixonada por ela. A Branca pode ser muito irrequieta e dá trabalho, mas tem-nos uma adoração desmesurada e adora cada membro da nossa família à sua maneira.
Pelas palavras da Branca: "A avó é a minha companheira fiel dos passeios, quando a mamã não está, e a que cozinha o meu franguinho com arroz delicioso. O avô é o meu preferido para partilhar a cama, quando chego da rua de passear com a minha avó e ao fim-de-semana ele está lá, vou-me chegando a ele, chegando, chegando, até ele deixar um espacinho na cama só para mim, para ficarmos encostadinho um ao outro. O meu tio é um doido, adora brincar comigo, embora não o veja muitas vezes, porque ele arranjou uma parceira e também teve um filhote; que até é parecido comigo, também se baba muito e tem uma espécie de ladrar semelhante ao meu, com guinchos e tudo, mas que também é muito giro, e tá sempre a tentar fazer-me festas - que é o meu primo Daniel. O meu tio David está sempre a brincar comigo e depois pega-me nas patas traseiras e diz "onde está a passarinha", e rimos muito os dois. A minha mãe, bem essa é que é maluca, anda sempre com uma bola atrás quando vamos passear e e está sempre a dizer-me para correr atrás da bola, diz que é p eu fazer exercício, mas eu acho é que é para ela fazer exercício porque ela tá um bocadinho gordinha. Mas ela gosta muito de mim! Dá-me muitos beijinhos e eu a ela. Faz.me festinhas para adormecer, escova-me para deixar o meu pêlo brilhante, faz-me frango com arroz todos os dias, e quando vimos da rua à tarde brincamos sempre um bocadinho na sala grande que ela tem, e à noite, por vezes, depois de fazer o meu xixi brincamos na garagem também"
Aprendi bastante com a Branca! Aprendi que uma coisa que me chateia imenso passa a não ser nada, quando ela me trás a bola para brincar e a empurra com o nariz para o meu colo. Aprendi que quando estou doente, ela não abandona a minha cama, mesmo quando tenho apenas tosse, ela fica lá a noite toda. E que quando estou triste e choro, ela nunca me abandona e percebe que necessito apenas de carinho, e dá-me uma das suas lambidelas, o que faz com que sorria novamente.
Melhorou em todos os aspectos a nossa vida familiar, todos rimos mais, estamos mais descontraídos, brincamos mais. Ela é de facto um membro fantástico da nossa família.
É a minha companheira, a minha amiga, a minha filha, a minha vida!
Saudades de sentir.
Sentir qualquer coisa que lhe seja parecido, ou apenas gostar de alguém. E não consigo.
Sou sortuda porque posso dizer que senti o amor, na sua mais pura forma, mas também sei que o perdi. Posso afirmar que já amei, que acreditei que aquele amor pudesse resistir aos tempos difíceis em que vivemos, em que o amor não passa duma palavra usada vulgarmente para obter curtos momentos de prazer, e poucas pessoas têm o previlégio de saber e sentir o que ele é realmente. Já são raros os gestos de carinho puros. Aquele nervosismo tão característico antes de encontrar a pessoa de quem se gosta; o chorar apenas porque nos apercebermos que estamos realmente felizes e temos tanto medo de perder esse momento por ser tão raro; o sorrir sem razão aparente, o olhar para ele e pensar "Amo-te tanto" de tal maneira que se torna visível nos nossos olhos; onde o sexo se torna tão cúmplice, cada gesto, cada toque demontra o quanto se conhecem bem.
Eu tenho sorte porque já amei alguém. Sou previlegiada. Cheguei a temer nunca saber o que era o amor verdadeiro, a dor do desgosto quando se perder quem amamos. Nunca pensei que doesse tanto o desgosto de amor, mas só assim sei que consigo sentir.
E também acredito que haverá uma alma gémea para cada um de nós, que todos temos o direito de sentir, pelo menos uma vez, o que é amar alguém.
Eu soube o que era amar.
Tenho saudades... apenas saudades.
